Em dez anos, apenas 17% das mulheres fizeram reconstrução mamária no SUS após câncer
Reconstrução mamária no SUS enfrenta desafios e baixa taxa de realização entre as mulheres após câncer.
Entenda o direito à reconstrução mamária
No Brasil, desde 1999, existe um direito garantido por lei que assegura às mulheres que foram submetidas a mastectomia devido ao câncer a possibilidade de realizar a cirurgia plástica reconstrutiva da mama. Esta medida se tornou uma importante parte do processo de tratamento, visando não apenas a saúde física, mas também o bem-estar psicológico das pacientes. Além disso, em 2013, foi sancionada uma norma que assegurava que a reconstrução pudesse ocorrer no mesmo ato cirúrgico da mastectomia, visando facilitar o acesso ao procedimento. Mais recentemente, em 2025, o direito à cirurgia foi ampliado para incluir casos que não se limitam ao tratamento oncológico, abrangendo também cirurgias conservadoras, onde apenas o tumor e parte do tecido saudável são removidos.
Dados alarmantes sobre cirurgias realizadas
Apesar da legislação, os números em relação à realização de cirurgias de reconstrução mamária são alarmantes. Entre 2014 e 2024, apenas 17% das mulheres que passaram por mastectomia conseguiram realizar a reconstrução mamária através do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse dado revela que a maioria das mulheres ainda enfrenta enormes dificuldades para acessar esse procedimento vital, apesar da existência da lei. No ano de 2023, o percentual de mulheres que conseguiram a reconstrução atingiu 20%, e em 2024 houve um pico histórico de 39,3%.
Os dados também mostram diferenças significativas nas taxas de reconstrução entre as diversas regiões do Brasil, o que destaca desigualdades no acesso ao tratamento e aos serviços de saúde disponíveis.
Tabela de percentual de reconstrução mamária por região (2024)
| Região | Percentual de reconstruções |
|---|---|
| Sul | 50,1% |
| Sudeste | 42,7% |
| Nordeste | 39% |
| Centro-Oeste | 17,8% |
| Norte | 20,7% |
Desafios na implementação das leis
Dentre os novos desafios enfrentados na aplicação dessas leis, encontra-se a falta de infraestrutura adequada para a realização das cirurgias. A escassez de materiais, como expansores e próteses em hospitais públicos, muitas vezes impede que as pacientes realizem a reconstrução de forma imediata. Isso resulta em uma frustração significativa e vários relatos de mulheres que tiveram que aguardar longos períodos, ou até mesmo entrar na Justiça, para garantir seus direitos.
Por exemplo, Elisângela Santos, uma mulher que passou por uma mastectomia, enfrentou dificuldades imensas para conseguir uma data para realizar sua cirurgia de reconstrução, tendo que buscar apoio de um advogado para resolver sua situação. Esta situação não é isolada, e muitas mulheres se encontram na mesma luta para conseguir o que lhe é garantido por lei.
Impacto psicológico da mastectomia sem reconstrução
As consequências psicológicas de não realizar a reconstrução após a mastectomia podem ser profundas. Estudos demonstram que mulheres que passam por uma mastectomia sem a subsequente reconstrução mamária frequentemente enfrentam altos níveis de ansiedade e depressão.
A perda de uma mama pode impactar a autoimagem da mulher, afetando negativamente sua saúde mental e qualidade de vida em geral. Especialistas apontam que a reconstrução não apenas ajuda na recuperação física, mas também desempenha um papel crucial no restabelecimento da confiança e autoestima da paciente.
Diferenças regionais no acesso ao SUS
As disparidades no acesso aos serviços de reconstrução mamária pelo SUS são pronunciadas entre as diferentes regiões do Brasil. Nas regiões Sul e Sudeste, a taxa de reconstruções realizadas é consideravelmente mais alta em comparação com as regiões Centro-Oeste e Norte. Muitas vezes, isso ocorre devido à falta de centros de assistência de alta complexidade, como os Cacons, que oferecem esses procedimentos de forma mais eficaz.
Os obstáculos enfrentados pelas mulheres
Além das barreiras regionais, diversos fatores adicionais podem complicar ainda mais a situação para as mulheres que desejam fazer a reconstrução, como diagnósticos tardios e a necessidade de mastectomias radicais. As pacientes que recebem diagnóstico tardio enfrentam maiores desafios, pois o tratamento é mais complexo e pode limitar as opções de reconstrução.
Lista de obstáculos comuns
- Falta de próteses e materiais no SUS
- Diagnósticos tardios que levam a intervenções cirúrgicas mais complexas
- Falta de informações sobre os direitos da paciente
- Dificuldades financeiras para acessar a medicina privada
A resposta do Ministério da Saúde
Recentemente, o Ministério da Saúde declarou que, em 2025, houve um avanço significativo nas cirurgias de reconstrução mamária realizadas pelo SUS. O ministério indicou que o número de reconstruções ultrapassou o de mastectomias. Porém, a classificação das cirurgias para reconstrução foi objeto de debate, pois inclui procedimentos realizados por motivos não oncológicos, o que gera divergências entre profissionais de saúde e o ministério sobre a real eficácia da informação.
Alternativas legais para a obtenção do direito
Diretrizes legais abriram caminho para que as mulheres possam reivindicar seus direitos em busca de justiça social. Muitos casos têm sido levados ao Judiciário, onde as pacientes buscam garantias de acesso às cirurgias e tratamentos necessários. No entanto, essa não é uma alternativa viável para todas as mulheres, pois envolve custos e o desgaste emocional que uma batalha judicial pode ocasionar.
O papel das instituições, como ONGs voltadas para a saúde da mulher, é fundamental para oferecer apoio e informações sobre os direitos e leis envolvidas.
O papel das ONGs e da sociedade civil
Organizações não governamentais têm se mostrado cruciais no suporte às mulheres que enfrentam situações difíceis após o câncer de mama e na luta pela garantia de seus direitos. Essas entidades oferecem desde orientações sobre como proceder em casos de negativa de atendimento, até apoio psicológico e jurídico.
Perspectivas para o futuro da reconstrução mamária
Com a implementação de novas políticas e a criação de programas que visam melhorar o acesso à saúde, espera-se um futuro mais promissor para mulheres que precisam de reconstrução mamária. No entanto, as mudanças ainda precisam de uma forte mobilização da sociedade civil e dos órgãos públicos, para que se mantenha a pressão sobre a saúde pública e que as leis sejam efetivamente aplicadas, garantindo que todas as mulheres que perderam suas mamas devido ao câncer receba o tratamento que merecem.
A luta pela reconstrução mamária é, portanto, uma luta pela dignidade e pelo direito de viver plenamente, que deve continuar até que todos os obstáculos que atualmente cercam esse direito sejam removidos. O desafio não é apenas garantir os serviços de saúde, mas também promover uma mudança cultural que valorize a saúde e o bem-estar das mulheres em sua totalidade.


