SUS precisa de plano de ação para não interromper atendimento de câncer em crise climática ou sanitária
SUS enfrenta desafios para manter atendimento de câncer em crises.
Desafios enfrentados pelo SUS
O Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil enfrenta múltiplos desafios que comprometem sua capacidade de oferecer atendimento oncológico de qualidade. Entre estes desafios estão a falta de recursos financeiros, a escassez de profissionais qualificados e a gestão ineficaz em situações de crises. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, observou-se uma queda drástica nos exames preventivos e nas cirurgias, colocando em risco os pacientes de câncer.
Além disso, eventos climáticos extremos, como enchentes e secas, podem interromper o acesso aos tratamentos, evidenciando a necessidade de planejar e integrar os cuidados com câncer nos planos de contingência do SUS.
Impacto da pandemia no atendimento oncológico
A pandemia afetou profundamente o atendimento oncológico no Brasil, resultando em uma redução significativa nos diagnósticos e nos procedimentos de tratamento. Em junho de 2020, durante um dos picos da pandemia, o SUS registrou uma diminuição de mais de 80% em mamografias e quase 70% em biópsias, além de uma queda de 25% nas cirurgias oncológicas. Esses números indicam que muitos diagnósticos passaram a ser feitos tardiamente, o que pode aumentar as taxas de mortalidade em consequência do câncer.
No entanto, a realidade é que muitos pacientes ainda enfrentam dificuldades de acesso a serviços essenciais. A experiência dos profissionais da saúde mostra que, mesmo após a normalização dos serviços em 2022, os efeitos da interrupção nos diagnósticos e tratamentos ainda são palpáveis.
Propostas de comitês permanentes
Um dos caminhos sugeridos por especialistas para melhorar a resposta do SUS diante de crises é a criação de um comitê permanente focado na gestão do câncer. Este comitê seria responsável por desenvolver diretrizes específicas de atendimento oncológico, assegurando que os pacientes não fiquem sem apoio durante crises. Além disso, ele poderia funcionar como um elo entre serviços de saúde públicos e privados, facilitando ações coordenadas.
Essa abordagem integrada permite uma resposta mais rápida e fundamentada, garantindo que as recomendações e os protocolos sejam aplicados uniformemente em todos os níveis de atenção à saúde.
Prioridades em crises sanitárias
Durante crises sanitárias, como pandemias ou desastres naturais, torna-se vital estabelecer prioridades claras para o atendimento a pacientes com câncer. Isso inclui definir categorias de tratamento que não podem ser adiadas e assegurar a continuidade dos cuidados mesmo em situações adversas.
Estabelecer protocolos que priorizem os pacientes com maior risco de complicações pode ser uma estratégia eficaz. Tais protocolos devem incluir:
- Avaliação constante do nível de risco de cada paciente
- Planos de contingência para transporte e acesso aos serviços de saúde
- Identificação de locais alternativos para tratamento
Importância de um fundo emergencial
A criação de um fundo emergencial específico para o tratamento do câncer, financiado por tributos sobre produtos como tabaco e álcool, foi proposta como uma forma de mitigar os impactos financeiros das crises na oncologia. Um fundo desse tipo poderia fornecer os recursos necessários para manter o atendimento em situações de emergência, evitando interrupções que podem levar a diagnósticos tardios.
A implementação dessa proposta exige um planejamento cuidadoso para garantir sua eficácia, considerando os padrões de arrecadação e a destinação correta dos recursos.
Critérios de atendimento oncológico
Para garantir que o atendimento a pacientes com câncer ocorra de forma justa e equitativa, é essencial definir critérios claros que serão aplicados durante momentos de escassez de recursos. Esses critérios devem considerar:
- A agressividade do tumor e estágio da doença
- A urgência do tratamento baseado na janela terapêutica
- A equidade no acesso, especialmente para populações historicamente negligenciadas
Essas diretrizes são fundamentais para que a pressão sobre os profissionais da saúde não se torne uma questão de escolha individual, mas sim de um sistema bem estruturado e preparado.
Relação entre clima e saúde
As mudanças climáticas têm um papel significativo na saúde pública, especialmente na onco-hematologia. O aumento de eventos climáticos extremos não só afeta a infraestrutura de saúde, mas também influencia na incidência e no tratamento de doenças.
Investigações recentes indicam que a exposição a condições climáticas adversas pode agravar certos tipos de câncer ou levar ao atraso no tratamento, uma ligação que precisa ser explorada mais profundamente nas políticas de saúde pública, integrando o planejamento ambiental às estratégias de cuidado oncológico.
A experiência internacional
Diversos países têm desenvolvido modelos eficazes para lidar com a questão do câncer em situações de crise. Na Europa, por exemplo, alguns sistemas de saúde já implementaram protocolos que garantem que os pacientes oncológicos recebam atenção prioritária em tempos de emergência. Essas iniciativas incluem desde a criação de sistemas de triagem até a disponibilização de serviços móveis de saúde em áreas afetadas por desastres.
Aprender com as experiências internacionais pode fornecer modelos que podem ser adaptados para a realidade brasileira, promovendo inovações no atendimento à saúde.
Mobilização de recursos para o SUS
A sustentabilidade do SUS, especialmente no contexto de atendimento oncológico, requer uma mobilização contínua de recursos. Isto envolve não apenas a alocação eficiente do orçamento existente, mas também a busca por novos fundos e fontes de financiamento.
Ao considerar alternativas de financiamento, como parcerias público-privadas e a abertura à iniciativa privada em momentos críticos, pode-se criar um ambiente mais robusto para o tratamento do câncer no Brasil.
Futuro do atendimento oncológico
Olhar para o futuro é fundamental para moldar um sistema de saúde que atenda efetivamente às necessidades dos pacientes com câncer. As propostas discutidas, incluindo a formação de comitês permanentes, a criação de fundos emergenciais e a definição de critérios de atendimento, oferecem um caminho claro para a evolução do SUS.
Além disso, a necessidade de integrar a saúde pública com planejamento ambiental é vital na luta contra o câncer, especialmente considerando as mudanças climáticas. Portanto, um futuro mais resiliente no tratamento oncológico no Brasil depende de um sistema adaptável e proativo diante de desafios, prontos para enfrentar as crises que a sociedade poderá encontrar.

